quarta-feira, março 26, 2008

Espalhem a Notícia

Restaurante Clube de Jornalistas

Na semana passada decidi voltar a um local onde já não ia há uns bons anos: o restaurante do Clube de Jornalistas. Recordo-me de ter sido dos primeiros sítios acessíveis, em Lisboa, onde se comia magret de pato e, também, onde havia uns dentes de alho em pickles que deixavam intrigado quem ali entrava pela primeira vez e os via serem deglutidos como se fossem azeitonas. A gerência catalã entretanto mudou (há três anos) e deixei de ouvir falar do local. Até que há uns tempos alguém me falou que havia por ali uma happy hour de ostras do Sado e champanhe por um preço muito atractivo (10€, seis ostras e duas flutes, entre as 19.30h e as 20.30h). Preso por este anzol, achei que era boa altura para regressar.
O espaço mantém-se o mesmo, embora a decoração tenha sido ligeiramente modificada de forma a tornar as várias salas da casa mais claras. Mantém-se o magnífico pátio interior (o mais belo de Lisboa, juntamente com o da York House), o que me parece óptimo para um refastelamento de fim de tarde de Verão, em boa companhia de conchas e bubbles francesas. Enquanto o termómetro teimar em não subir, desfrute-se das salas interiores porque vale a pena, pelo que constatámos numa destas ultimas sextas-feiras.
Como entrada começámos por pedir uns cogumelos selvagens salteados, com caramelo de trufa, acompanhados de umas fatias finíssimas de broa (8€). Inicio auspicioso: produto de boa qualidade, cozinhado no ponto, numa excelente conjugação de aromas e sabores com a presença discreta da trufa a valorizar o conjunto, sem nunca ofuscar o principal. Ainda no campo das entradas veio um leite-creme queimado de salmão fumado (7€) e peito de pato fumado na casa, foie gras salteado com pêras e moscatel (12€). O primeiro é daqueles números arriscados que se não resulta pode dar em algo muito desagradável, mas se funciona bem, a audácia sai valorizada. E foi o segundo caso. Por estranho que possa parecer, o sabor do salmão, num creme de consistência correcta, funcionou muito bem com o açúcar caramelizado. Aposta ganha. Já o peito de pato fatiado e fumado na casa, destacou-se por essa característica fumada bem vincada, embora o conjunto com o foie gras fresco (de boa qualidade) a pêra e a redução de moscatel não me parecesse uma conjugação completamente bem conseguida (o fumado do pato retirou alguma nobreza ao sabor do foie). Com as expectativas numa fasquia elevada passámos aos pratos principais, onde comi um borrego marinado em mostarda antiga com couscous e menta (14€), de que só posso dizer bem: carne saborosa e tenra, tempero acertado, conjugação clássica com cuscuz e menta, correcta e, uma boa abóbora menina assada no forno a compor o ramalhete. Provei ainda o generoso risotto de vieiras (18€), al dente, como é da minha preferência; e um salmão em crosta de sésamo (14€), com arroz selvagem e legumes salteados que, embora tivesse vindo passado demais, prontamente foi substituído por outro no ponto correcto de cocção. Para terminar foi pena que as sobremesas que escolhemos não estivessem ao nível do que até então nos foi servido. O ananás em ravioli com recheio de Manga e sorvete de tangerina (5.50€) não era tão interessante quanto o enunciado fazia crer (tratava-se de fatias finas de ananás dobradas com o recheio de manga no interior) e o bolo gazeta (6€), uma “ganache” de chocolate, também não me excitou por aí além, em parte devido à sua consistência algo pesada.
Em termos de vinhos o seu bom preço permite valorizar a refeição, embora a carta pudesse ser mais ampla em termos de brancos (consta que isso acontecerá com o aproximar do Verão). Bebemos um Lavradores de Feitoria, Sauvignon Blanc 06 (17€) e, com as sobremesas, foi-nos oferecido, a copo, um generoso da Quinta de S. Francisco (Óbidos), um moscatel do Douro e um Madeira H&H.
O serviço foi eficiente, o que faz com que, em termos globais, não tenha pejo em deixar a mensagem: espalhem a notícia.

Preço médio para refeição completa de entrada, prato e sobremesa, 35€/pax, com vinho (ao contrário do que o nome possa sugerir, o restaurante encontra-se aberto ao público).

P.S. Com isto tudo falhei as ostras acompanhadas de champanhe, o que me vai fazer lá voltar. Que maçada…


Contactos:
Rua das Trinas 129 r/c – Lisboa ; Telef: 213977138



Publicado originalmente no jornal OJE (http://www.oje.pt/) em 26 de Março de 2008

USB Wine (run Forest, run!)

Aviso: o abuso de álcool electrónico pode fazer mal à saúde...

video

P.S. obrigado A.Lacerda!

segunda-feira, março 24, 2008

Há ostras na Rua das Trinas

Apanhado no anzol da notícia de um Happy hour de ostras e champanhe, por 10€, regressei à Rua das Trinas. Como não cheguei a tempo, falhei essa parte (é ridículo, eu sei). Mas jantei por lá e não me dei nada mal. Nada mesmo.

Saiba mais, no Oje da próxima Quarta-feira.

domingo, março 23, 2008

E agora, António?

Ontem fui visitar o António Carvalho, personagem que apenas conhecia de algumas palavras trocadas no reboliço do El corte Inglês, onde costumava deslocar-se sempre que lhe pediam que viesse promover os seus vinhos. Por vezes, gostava de ficar a observar, à distância, a reacção dos pseudo entendedores (daqueles que dizem que vinho é tinto e de preferência bem morninho) perante o olhar vivo e desconcertante do António, quando este os convidava a provar os seus brancos da Estremadura, região que não tem o pedigree do Douro ou do Alentejo, e em que as garrafas não ostentam, no rótulo, o nome Quinta de qualquer coisa com um brazão.

Acontece que o António Carvalho é autor e produz dois vinhos de culto portugueses, O Casal Figueira Tradition e o Casal Figueira Vindima Tardia. Na verdade não produz, produzia.
Infelizmente, agora em que as suas vinhas estavam a atingir a maturidade, vão ser substituídas por plantações de morangos industriais, para regozijo dos impacientes da fruta de época.
Ontem, quando o visitei, não lhe perguntei o porquê de sucumbir a esse poder agro-industrial, logo ele que nunca se cansou de explicar as virtudes da produção do seu vinho segundo processos biodinâmicos.
Ainda tentei puxar para a nostalgia mas percebi que estava em vias de cair no ridículo. Afinal, o clima era de festa e todos os que quiseram aparecer mostravam-se felizes por ali estarem em convívio, provando, bebendo e comendo, sem pressas, como se amanhã fosse apenas mais um dia normal.

E agora António?

“ – Agora… agora começa-se tudo de novo, noutro sitio.”

quarta-feira, março 12, 2008

De corpo e alma

Restaurante Vin Rouge

Existem restaurantes que, devido à localização privilegiada, podem dar-se ao luxo de serem apenas sofríveis (para não dizer pior). É estranho, inexplicável, mas infelizmente, verdade.
Por outro lado, existem outros que, estando em sítios menos evidentes, necessitam de um esforço adicional para poderem vingar. Nestes, uma refeição aceitável não é suficiente para fidelizar e muito menos para o tão precioso “passa a palavra”. Esta questão é tanto mais verdade quando se quer apostar numa cozinha com alguma sofisticação e em que por isso se torna fundamental ultrapassar as fronteiras do restaurante de bairro.

Esta introdução vem a propósito do Vin Rouge, um pequeno restaurante no interior do Estoril, onde salta à vista a paixão de quem nos serve, e a segurança e respeito de quem cozinha para nós. Ela, Rita Caldas, na sala, traz-nos a simpatia e a eficiência de quem serviu no Valle Flor. Ele, João Antunes, o Chef, passou pelas cozinhas do Ritz, do Fortaleza do Guincho e do 100 Maneiras. Juntos abriram este restaurante há cerca de ano e meio, onde a pouco e pouco têm vindo a conquistar um público mais vasto.

A ementa é relativamente curta (cinco entradas, três pratos de peixe, três de carne e cinco risottos), o que é compreensível para a viabilidade de um local desta dimensão. Numa primeira visita vale a pena optar pelo menu de degustação, à consideração do chefe e composto por uma entrada, prato de peixe, prato de carne e sobremesa (39.50€). Nós fizemo-lo e demo-nos bem, tal como na escolha do vinho, a copo (com várias opções e a preço mais do que sensato), também deixado à responsabilidade de quem tratou de nós.

O jantar começou com um “entretém de boca” de creme de couve-flor aromatizado com azeite trufado, numa excelente ligação de sabores. A acompanhar, um branco da Quinta dos Roques (Dão), o Malvasia fina 2006 (3€), que aguentou muito bem o sabor intenso a trufa, revelando-se de forma mais assertiva, com a entrada de vieiras salteadas, cogumelos selvagens, pack choy e molho de alho francês (é óptimo quando todos os ingredientes contribuem harmoniosamente para que o elemento principal, neste caso a vieira, brilhe de forma superior). Quando nos preparávamos para o primeiro prato de peixe, deparámo-nos com a oferta surpresa de mais uma entrada, um excelente foie salteado com redução de Porto, acompanhado por ruibarbo confitado (pena que este se revelasse demasiado neutro, impedindo-o de auxiliar devidamente o foie). A nosso pedido, bebemos um copo de Chatêau Broustet 97 (9€), um Barsac Sauternes, de doçura e acidez apropriada.
Chegada a vez do prato de peixe, foi-nos apresentada uma raia salteada, que embora pudesse ser mais carnuda, estava muito bem tratada, tal como os gnocchis que a escoltavam (acompanhou, um chardonnay, o Ardèche05, da casa francesa Louis Latour – 3€). De seguida, um risotto com bochecha de porco estufada e couve lombarda, feito à portuguesa, (confeccionado com arroz arbóreo, mas sem grandes vestígios de queijo parmesão). Esta opção, conjuntamente com a couve lombarda, conferiu uma maior leveza e contraste adequado à bochecha de porco de sabor bem vincado. A proposta vínica, neste caso, incidiu no Pontual 05, Syrah, (3.50€) um tinto alentejano surpreendentemente fresco, de bom acidez e a evidenciar o toque achocolatado característico da casta. Conjugação perfeita.
A refeição terminou com uma trouxa quente (massa filo) de maçã e nozes, numa combinação clássica, com gelado de baunilha. Doce, sem exageros e devidamente facilitada por um Madeira Barbeito Boal reserva, Veramar (6€). Uma agradável surpresa mesmo para que não é grande apreciador de Madeiras jovens.

Em jeito de nota final deixo a recomendação deste lugar a todos aqueles que gostam de uma cozinha moderna, simples e honesta, tratada com profissionalismo e paixão. É que, embora este seja um negócio de restauração como tantos outros, tem todos os ingredientes que nos fazem querer voltar.
Por esta refeição pagou-se 137€/2 pessoas, sendo que o preço médio de uma refeição mais simples, andará na casa dos 35/40€, por pessoa, com vinho.


Contactos: Rua Carlos Anjos, Lote 2, 2765-473 Estoril ; Telefone: 214 684 439 (http://www.restaurantevinrouge.blogspot.com/)

Publicado originalmente no jornal OJE (http://www.oje.pt/) em 12 de Março de 2008

terça-feira, março 11, 2008

A balada do João e da Rita

Depois de um ano a ouvir falar bem sobre trabalho do João e da Rita, peguei nos tamanquinhos e pus-me a caminho do Estoril. Será este mísero escriba a voz dissonante de tantos aplausos?

Amanhã, na critica do Oje.